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Desempenho da economia no segundo trimestre de 2021

Por Carlos Gilbert Conte Filho

O PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro teve queda de 0,1% no segundo trimestre de 2021. Esse resultado indica estabilidade e vem depois de três trimestres seguidos de crescimento da economia (gráfico 1). Com isso, a economia brasileira avançou 6,4% no primeiro semestre. No acumulado de 12 meses, o PIB registra alta de 1,8%. Na comparação com o segundo trimestre do ano passado, período em que o País foi mais afetado pela primeira onda da covid-19, a economia cresceu 12,4%.

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Gráfico 1: PIB trimestral no Brasil entre 2019 a 2021. Fonte: IBGE (2021).

 

A análise do PIB pode ser realizada tanto observando o desempenho pelo lado da oferta – composta pelos três setores da economia (indústria, serviços e agropecuária) – como pelo lado da demanda (consumo das famílias, investimento do setor privado, gasto do governo e setor externo). Vejamos.

            Pelo lado da oferta, o desempenho da economia no trimestre vem do resultado negativo da agropecuária (-2,8%) e da indústria (-0,2%); e do resultado positivo do setor de serviços (0,7%) (gráfico 2).

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Gráfico 2: PIB no Brasil pelo lado da oferta entre 2020 e 2021. - Fonte: IBGE (2021).

 

Entre as atividades industriais, o desempenho foi puxado pelas quedas de 2,2% nas Indústrias de Transformação e de 0,9% na atividade de Eletricidade e gás, água, esgoto, atividades de gestão de resíduos. Essas quedas se opuseram à alta de 5,3% nas Indústrias Extrativas e 2,7% na Construção.
Nos serviços, os resultados positivos vieram de quase todas as atividades: informação e comunicação (5,6%), outras atividades de serviços (2,1%), comércio (0,5%), atividades imobiliárias (0,4%), atividades financeiras, de seguros e serviços relacionados (0,3%) e transporte, armazenagem e correio (0,1%). Administração, defesa, saúde e educação públicas e seguridade social (0,0%) ficou estável. Quase todos os componentes dos serviços cresceram, com destaque para o comércio e transporte na taxa interanual, que foram as atividades mais afetadas pela pandemia e que estão se recuperando agora, momento em que há uma maior flexibilização das normas de isolamento social no Brasil.

Já a agropecuária ficou negativa em função de um conjunto de fatores. O primeiro deles é que a safra do café entrou no cálculo o que teve um peso importante no resultado do segundo trimestre. A safra do café está na bienalidade negativa, que resulta numa retração expressiva da produção. A queda na produção também foi influenciada pela forte seca nas principais regiões produtoras de café, como Minas Gerais, São Paulo e Espírito Santo. A falta de chuvas interferiu na floração das plantas e, posteriormente, no enchimento de grãos. Outro fator que influenciou negativamente o desempenho da agropecuária é a atual crise hídrica brasileira, que prejudicou lavouras de Norte a Sul do país. Nisso, a cultura do milho vem sendo muito afetada pela questão climática, de modo que a estimativa de colheita seja menor em 11% neste ano. Outro fator preponderante partiu da soja, principal grão da produção nacional. Como a soja teve safra maior no primeiro trimestre, um resultado não tão robusto no segundo trimestre acabou impactando, no resultado final, de modo negativo. 

Pelo lado da demanda, o resultado do PIB no segundo trimestre reflete o consumo das famílias, que não variou no período (0,0%), ainda impactado pelos efeitos da segunda onda da pandemia no país. Já o consumo do governo teve alta de 0,7%. Os investimentos(Formação Bruta de Capital Fixo),por sua vez, recuaram 3,6% no período (gráfico 3).

 


Gráfico 3: Consumo das famílias, formação bruta de capital fixo e gasto do governo entre 2020 e 2021. - Fonte: IBGE (2021).

 

Dentre os fatores que explicam o resultado dessas rubricas pode-se citar o impacto que a inflação exerceu sobre a economia. Diante da inflação galopante (gráfico 4) e, visando controla-la, a autoridade monetária tem recorrido ao aumento da taxa básica de juros (Selic). Ou seja, apesar dos programas de auxílio do governo, do aumento do crédito a pessoas físicas e da melhora no mercado de trabalho, a massa salarial real vem caindo, afetada negativamente pelo aumento dos preços. Em decorrência do aumento expressivo dos preços (o IPCA soma 8,99% nos últimos 12 meses), a autoridade monetária respondeu elevando a taxa básica de juros (atualmente em 5,25% ante a 2% registrados no início de 2020). O resultado das taxas de jurosse reflete tanto no consumo como nas decisões de investimento: as famílias tem mais incentivos a poupar – abrindo mão do consumo presente visando a um consumo no futuro (dado o maior rendimento) – e os investimento no setor real são desincentivados em detrimento de investimento no setor financeiro (de menor risco e, agora, com remuneração mais alta).

É importante salientar que oexpressivo aumento da inflação ao longo deste ano – mesmo ante a aumentos da taxa básica de juros – faz com que alguns analistas projetem uma Selic em 8% ao fim de 2021, o que seria desastroso para uma economia que mira a recuperação. Ainda pelo lado da demanda, as exportações de bens e serviços tiveram crescimento de 9,4%, enquanto as importações de bens e serviços recuaram 0,6% em relação ao primeiro trimestre de 2021.

 


Gráfico 4: IPCA acumulado em 12 meses. - Fonte: IBGE (2021).

 

Ante ao resultado marginalmente negativo do PIB no segundo trimestre de 2021 (projeções apontavam um crescimento de 0,2%), o mercado financeiro já revisa a projeção de crescimento para a economia brasileira um pouco para baixo. Em agosto o mercado esperava um crescimento do PIB de 5,3%. Em setembro, a expectativa do produto para 2021 caiu para 5,13%. Há quem pense que ainda teremos um crescimento expressivo, mas não devemos esquecer do espaço que o isolamento social provocado pela pandemia causou na economia brasileira ao longo 2020 (queda de -4,1% do produto). Ou seja, com a retomada gradual das atividades é normal que o produto viesse a crescer. Nesse perde e ganha em termos de crescimento, o que chama a atenção é a queda da expectativa. E a isso se deve uma série de fatores que geram incerteza junto a economia brasileira: inflação alta, crise energética, seca, ameaça de crise fiscal e os ruídos entre os poderes vindos de Brasília.