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A Escalada Inflacionária e a Taxa Básica de Juros

Por Carlos Gilbert Conte Filho

Com o aumento do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) ao longo dos últimos meses – atualmente o acumulado pelo IPCA em 12 meses ultrapassa os 9% – a autoridade monetária percebe, cada vez mais fortemente, a necessidade de elevar a taxa básica de juros (Selic). No mês de agosto,o IPCA ficou em 0,87%. Esta foi a maior taxa para um mês de agosto desde 2000. Assim, dos 377 itens acompanhados pelo Instituto Brasileiro de Estatística (IBGE), 72% tiveram elevação de preços, o que fez com que o IPCA acumulado em 12 meses alcançasse a marca dos 9,68% (gráfico 1),a mais alta desde fevereiro de 2016.


Gráfico 1: IPCA acumulado em 12 meses. Fonte: IBGE (2021).

Dentre os itens que levaram os preços a este patamar neste ano, mais da metade da inflaçãoé resultado da disparada dos combustíveis, energia e carne. Esses estão entre os itens que mais têm pesado no bolso do brasileiro e na inflação. Como resultado, o mercado financeiro estima que a inflação medida pelo IPCA somará 8,45% neste ano, mais do que o dobro da meta central e acima do teto máximo estabelecido pelo Banco Central do Brasil: (3,75% com variação de 1,5% para mais ou para menos). Para 2022, a previsão de inflação do mercado está em 4,12%, acima da meta central (3,5%), mas ainda dentro do intervalo de tolerância.

O principal instrumento do Banco Central do Brasil (BC) para conter a propagação da alta de preços é a taxa básica de juros, que é definida com base no sistema de metas de inflação. Neste sistema, quando a inflação está alta, o BC eleva a Selic(e vice-versa).Em linha com o esperado pela maior parte dos agentes de mercado, o BC elevou em 1% a Selic, fazendo com que esta alcançasse os 6,25% ao ano (gráfico 2). Esta foi a segunda vez seguida que o BC ajustou a taxa básica nesta magnitude. A decisão unânime da autoridade monetária da sequência ao ciclo de aperto monetário para controlar uma inflação que tem se mostrado mais persistente e disseminada do que antes se imaginava. É importante ressaltar que, neste momento, o BC já está olhando para a meta de inflação de 2022 para definir os juros, haja visto que é impossível atingir a meta estabelecida para 2021.


Gráfico 2: Taxa básica de Juros (Selic) no Brasil entre 2019 e 2021. Fonte: Banco Central do Brasil (2021).

Além da escalada de preços, o Copom também considera que o risco fiscal do País segue elevado e que dúvidas sobre a aprovação das reformas defendidas pelo governo podem levar a novas elevações da taxa Selic. Isto posto, o Comitê de Política Monetária (Copom) afirmou que antevê outro ajuste da mesma magnitude— isto é, de um ponto percentual — na taxa Selic a ser definido na próxima reunião, no final de outubro (o que viria a ser a terceira alta consecutiva dos juros básicos da economia). 

Caso um novo aumento da Selic se concretize, a taxa básica de jurosestará mais próxima de alcançar o nível esperado pelo mercado, conforme destaca o Boletim Focus. Na última edição deste boletim (27/09), mais de cem instituições financeiras e analistas do mercado financeiro projetaram que a taxa Selic continuará avançando nos próximos meses e deve fechar 2021 em 8,25% e em 8,5% em 2022.

Contudo, em decorrência da escalada de preços, o que o Banco Central vem fazendo ao longo das últimas reuniões é elevar o custo do capital. Como o capital é o óleo da engrenagem da economia, a atividade vem perdendo força. E isso, num cenário que a recuperação da economia é fundamental – em 2020 o PIB caiu -4,1% – é um tiro no pé. O aumento dos juros básicos tem vários reflexos na economia. A elevação da taxa de juros resulta em taxas bancárias mais elevadas, tendo impacto maior na linha e crédito para aquisição da casa própria, por exemplo.

O aumento da taxa de juros também influencia negativamente o consumo da população e os investimentos produtivos, impactando, assim, o Produto Interno Bruto (PIB), o emprego e a renda.O aumento da taxa básica da economia gera uma despesa adicional com juros da dívida pública (lembrando que a dívida pública federal está em quase 90% do PIB). Cadernetas de poupança e aplicações financeiras em renda fixa tendem a render um pouco mais, o que desincentiva o consumo, mas desacelera a retomada da economia. Com o juro básico em 6,25% ao ano mais taxa referencial (TR), por exemplo, a poupança passará a render 4,37% ao ano, contra 3,67% ao ano, mais TR (com taxa Selic em 5,25% ao ano). Mesmo assim, o rendimento da poupança segue perdendo para a inflação, o que não arrefece o consumo (e, portanto, podendo gerar mais inflação). Além do juro básico, o aumento do IOF anunciado pelo governo também impacta o custo final dos empréstimos, o que impacta diretamente (e negativamente) na venda de bens. Ou seja, em um cenário marcado pela redução da atividade econômica em 2020 e que almeja a recuperação neste e no próximo ano, a elevação da taxa básica de juros desacelera a atividade econômica, o que impactará, inevitavelmente, no desempenho da economia daqui para frente.

A consequência de todo esse conjunto de fatores é que os analistas de mercado veem reduzindo, ao longo das últimas semanas, a expectativa de crescimento econômico para este ano e, principalmente, para 2022. Ao longo dos últimos dois meses, a expectativa de crescimento do PIB para 2021 e 2021 se reduziu, respectivamente em 0,3% e 0,5% (gráfico 3).


Gráfico 3: Expectativa do mercado para o PIB do Brasil em 2021 e 2022. Fonte: Banco Central do Brasil (2021).