Liquidação do Banco Master evidencia vulnerabilidades do sistema bancário
2025-11-28 12:05:29A liquidação extrajudicial do Banco Master, decretada pelo Banco Central em 18 de novembro, marca um dos episódios mais delicados do sistema financeiro brasileiro nos últimos anos. O cenário econômico é especialmente sensível porque a medida atinge diretamente 12,4 milhões de clientes e já implica uma perda estimada de R$ 1,86 bilhão para fundos de previdência pública. Após um período de crescimento acelerado e forte presença em operações estruturadas, a instituição viu sua liquidez se deteriorar rapidamente, dando origem a um quadro de irregularidades, problemas de governança e suspeitas criminais que culminaram na intervenção imediata da autoridade reguladora e na prisão do controlador do grupo. A interrupção súbita das atividades não afeta apenas os clientes do banco, mas repercute sobre toda a cadeia de crédito e cria incertezas para pequenas e médias empresas, setores produtivos e investidores institucionais.
A liquidação extrajudicial é, na prática, um encerramento compulsório determinado pelo Banco Central quando a instituição deixa de reunir condições para continuar operando. A partir desse momento, um liquidante nomeado pela autoridade monetária assume o controle administrativo, identifica ativos e passivos, congela operações e conduz o processo de liquidação patrimonial. Para clientes que mantinham contas, depósitos ou títulos cobertos pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC), o atendimento passa a seguir as regras deste, respeitando limites definidos. Já valores acima desse teto se transformam em créditos sujeitos ao processo de liquidação, cujo desfecho depende da venda de ativos do próprio banco. Investidores que possuíam CDBs, LCIs, LCAs e produtos semelhantes também entram no rito de avaliação e, se não estiverem sob cobertura do FGC, precisam aguardar o andamento do processo para conhecer a extensão de suas perdas.
As empresas que tinham financiamentos, empréstimos ou contratos ativos com o Banco Master permanecem obrigadas a cumprir seus compromissos. A liquidação não extingue dívidas nem permite renegociações automáticas; as condições pactuadas continuam válidas e passam a ser administradas pelo liquidante. Mais delicada é a situação de companhias que utilizavam o Master como banco domicílio para liquidação de boletos, registro de recebíveis ou centralização de pagamentos. Essas rotinas tendem a sofrer atrasos, inconsistências e reprocessamentos, o que pode gerar transtornos operacionais, sobretudo para negócios dependentes de fluxo diário de caixa. Processos de redirecionamento de pagamentos, mudança de domicílio bancário e regularização de recebíveis se tornam inevitáveis, exigindo atenção redobrada das empresas envolvidas.
Também merecem destaque os impactos sobre operações estruturadas, fundos de investimento e instrumentos lastreados no Banco Master. Fundos que possuíam títulos vinculados ao banco podem enfrentar perdas contabilizadas pela marcação a mercado, e certas operações podem entrar em estado de inadimplência técnica, requerendo renegociações ou execução de garantias. O episódio evidencia o quanto estruturas sofisticadas dependem de contrapartes sólidas e reforça a necessidade de mecanismos de governança rigorosos em um ambiente no qual bancos médios vinham ganhando espaço de maneira acelerada.
Para o setor de fomento mercantil, a quebra do Banco Master funciona como um alerta, mas também como um termômetro do momento econômico. Diferentemente do modelo bancário alavancado, as empresas de fomento operam com recursos próprios, baseiam-se em análise direta da atividade dos cedentes e mantêm relação cotidiana com a economia real. Em períodos de instabilidade financeira, essa proximidade e essa ausência de alavancagem tendem a oferecer maior previsibilidade e menor exposição a riscos sistêmicos. Ao mesmo tempo, a interrupção das operações de um banco que atendia empresas de pequeno e médio porte cria um vácuo imediato na oferta de crédito tradicional, e isso tende a aumentar a procura por alternativas mais ágeis de financiamento, especialmente aquelas que conseguem analisar risco de forma granular.
No Rio Grande do Sul, onde muitos negócios ainda enfrentam dificuldades decorrentes de eventos climáticos extremos recentes, o episódio assume relevância adicional. Empresas que já tinham fluxo de caixa comprimido e dependiam de bancos médios para capital de giro podem enfrentar uma fase de transição difícil, justamente quando precisam de liquidez para recompor estoques, ajustar produção ou reorganizar operações. É nesse ambiente que o fomento mercantil tende a se destacar, não como substituto do crédito bancário, mas como uma via eficiente e descentralizada de acesso a recursos, baseada em avaliação real da capacidade de pagamento das empresas.
Os desdobramentos da liquidação do Banco Master devem se estender pelos próximos meses e envolver disputas judiciais, ajustes regulatórios e debates sobre supervisão financeira. Mais do que um caso isolado, o episódio revela uma fragilidade estrutural: o crescimento acelerado de determinadas instituições sem o devido acompanhamento de controles internos, governança e padrões de transparência. Ao mesmo tempo, reabre a discussão sobre a importância de modalidades de crédito mais conectadas à atividade produtiva, especialmente em um contexto no qual pequenas e médias empresas respondem por grande parte do dinamismo econômico regional.
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